É preciso carregar a palavra para a perceberes? [prólogo]
Da janela via a rua miúda e ao longo dela, um banco de jardim. Do quarto andar, entre as cortinas caiadas de branco, um respirar alimentado pelo que vê, existe longe, guarda as paisagens que imagina. Um banco de jardim de madeira velha, imenso, já gasto pelas nuvens, disposto à forma da luz.
Há sempre quem passeie. A rua tem duas margens longas e vazias de passeio. De um lado um banco de jardim, cidade âncora sem distância. Do outro, uma cabine telefónica de conversas a irem ter com ela.
Àquela hora vinhas tu e toda a memória que em ti me lembro. Curvavas a arvore que antecedia o banco e depressa te perdias na povoação de um olhar vazio. Tinhas uma espécie de caixa a teu lado, invisível, toda a vida que acabaste por guardar.
Uma cabine telefónica expressa em vontade de estares lá e não regressares ao corpo compacto e fundido da cidade ancorada num banco de jardim.
Quarto andar, cortinas quase entrelaçadas. Viajava-te no perceptível choro que não dizias, na impensável vertigem das paisagens que um dia pisaste. Existia na possibilidade de estar na caixa de um universo só teu. Respirava um silêncio tão tranquilo.
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